o traço do SE7E

dias atrás, na lista de discussão de tipografia, da qual participo, rolou um interessante e longo papo sobre a tradição de se cortar o sete (7) com um traço. dentre as inúmeras e bem propostas explicações pára o caso, selecionei algumas para publicar aqui

Murilo Endriss

Alguém saberia me dizer a origem do corte no sete. Muitas pessoas quando escrevem, cortam o sete outras não. Quando fiz essa pergunta ao Tony em workshop realizado em Pernambuco, ele disse que isso não existia, e esse corte era totalmente errado. Esse corte é coisa de brasileiro? Pedi para meu sobrinho de 6 anos escrever um 7 e ele cortou, ou seja ele está aprendendo dessa forma cortado. Essa semana descobri um sete cortado, o 7 para digitar a senha de acesso ao caixa eletrônico do banco itaú possui o corte no meio. No caso da criação de uma fonte com o corte no 7 seria uma característica brasileira ou uma tosqueira sem fim?

Hugo Charrão, Portugal

Relativamente à origem do corte do sete não te sei responder, o que é certo é que é utilizado com muita frequência, principalmente em letra manuscrita. Quando aprendi a escrever aprendi a escrever o sete com corte, hoje tenho 25 anos e continuo a fazê-lo, aqui em Portugal. Se formos ver manuscritos antigos o sete está cortado, a minha avó com 82 anos escreve o sete com corte. A ser uma característica específica, será da língua portuguesa.

Em desenho tipográfico nunca vi o corte no sete. Os comentários que estou a fazer baseiam-se enquanto observador, não há qualquer base científica. Mas acho que a questão é bastante pertinente, se houver alguém com alguma informação específica nisso seria bom esclarecer. Porque será que escrevemos o sete com corte, e sem corte quando se desenha uma fonte?

Fabio Lopez
O sete cortado tem origem bíblica.

Reza a lenda que Moisés desceu do Monte Sinai com as tábuas dos dez mandamentos e começou a lê-las para seu povo. Quando chegou no sétimo mandamento ‘não cometerás adultério’ o povo se revoltou e começou a gritar:

Corta o sete! Corta o sete!

Em grafologia, se você quiser saber se alguém ‘mija fora do pinico’ é só verificar se o sujeito corta o sete ou não. Desde os primórdios o sete vem sendo cortado no mundo inteiro, mas é que no Brasil a coisa é meio institucionalizada.

Aliás, perceba que o quatro também é cortado, e pelo mesmo motivo. Na versão original dos dez mandamentos, o de número 4 dizia que o sétimo dia da semana deveria ser reservado para descanso. Em hebraico esse dia se chama shab báth, ou sábado. Aos poucos as pessoas foram preferindo o domingo para ficar de bode e tascaram um traço no quarto, pra dizer que esse também não seria cumprido.

Se você conhecer alguém que risca o 6, o 8, o 9 ou que não consegue desenhar um algarismo sem risca-lo: sai de perto que o cara é um perigo…

De onde você acha que vem a expressão X-9 por exemplo? Do nono mandamento, que é ‘não levantarás falso testemunho contra teu próximo’. Ou seja, não cagüete teus amigos! O cara que corta o 9 (com vontade, diga-se de passagem) merece morrer na vala! hehe…

Sebastião Miguel

gostei, mas achei isso: O numero 7, não apenas tem o risco do meio, como também tem um risco em baixo quando foi criado. Quem criou os numeros, os fêz pensando num modo fácil de memorizar, no qual, cada numero representa uma certa quantidade de angulos.

Por exemplo:
1 -> um angulo
2 -> dois angulos..
8 -> oito angulos..
0 -> valor nulo, não possui angulos.

o sete é cortado para que nos manuscritos ele não seja confundido com o 1

Paulo W

Ninguem criou um algarismo ou uma letra. São criações coletivas que avançam e recuam na forma com o passar dos séculos. As vezes uma cultura simplesmente absorve uma forma PRONTA para seus fins. É o caso de como os gregos usaram alguns e negaram outros dos caracteres fenicios. E depois os romanos fizeram o mesmo com o alfabeto grego, que ainda se subdividiu gerando o iidiche.
Vejam minha suposição: os gregos utilizaram certos caracteres fenicios mudando-lhes todavia a representação fonética. Então tivemos um momento histórico em que o caracter “tal” manteve sua forma mas foi lhe dada outra representação fonética.
É possivel que, ao invés de terem se criado os angulos para a idealização dos algarismos tenha acontecido o contrário, certos algarismos preexistentes com determinado numero de angulos foram sendo entendidos como portadores da mensagem “1”, “2” e assim por diante
O livro “O Livro” de Douglas MacMurtrie é muito didático nos ajudando a entender a evolução dos alfabetos. A coisa mais importante que aprendi lendo-o foi: os alfabetos receberam tantas influencias de tantas fontes de maneira que não podem ser compreendidos linearmente

Fabio Lopez

tenho acompanhado umas aulas de paleografia na uni-rio com o excelente professor franklin leal e você não faz idéia de como os escribas portugueses eram porcalhões de mão pesada.

essa história de diferenciar as letras tem caráter apenas escolar, não era um pilar do trabalho apressado do escriba. aliás, como você deve imaginar, não são apenas essas letras que podem confundir-se, mas algumas dezenas de combinações que quando feitas às pressas acabam se parecendo muito (algumas formas arcaicas foram abandonadas por esse mesmo motivo).

para essas confusões a única coisa que resolve o problema de leitura e/ou transcrição é o contexto da palavra, amparado pelo teor da frase e as vezes do próprio documento – não havia tracinho que desse jeito, e nunca ouue (houve, do português arcaico 😉 esse costume.

tradicionalmente também, letras tendem a andar juntas de outras letras, e números junto a outros números, fazendo com que a diferenciação entre esses dois grupos não fosse tão necessária. já estabelecer uma diferença entre o 7 e o 1 era tarefa mais emergente, já que as duas formas poderiam facilmente se substituir em qualquer contexto.

entretanto, essa tradição de cortar as letras não advém do manuscrito processual – utilizado em

documentos e burocratizes, mas da caligrafia escolar. traduzindo, é coisa mesmo lá dos manuais de caligrafia da escolinha da tia teteca.

a única maneira de saber de onde vem essa prática (e qual foi o primeiro autor a instituir esse método de diferenciação na educação brasileira) é caçar os tais manuais utilizados em cursos alfabetizantes. vai aí uma pesquisa associada de pedagogia e tipografia, pra quem quiser perder um tempinho num mestrado…
a provável explicação para que caracteres riscados sejam muito frequentes em tipografias nacionais é um pouco desanimadora: na minha opinião deve-se a falta de tradição da atividade no país, fazendo com que muitos designers acabem não utilizando modelos tipográficos tradicionais (afinal, onde está a tradição?) desenvolvendo seus alfabetos sob influência direta de modelos escolares de caligrafia cursiva.

a tendência natural (individual e coletiva) é que com experiência esses ‘vícios’ acabem sendo corrigidos (amparados pelas referências clássicas), retirando-se traços em 7s e Zs oriundos das aulas primárias de caligrafia – padrões de desenho de pouca serventia no desenvolvimento de uma fonte tipográfica de texto.

wolfang weingart provavelmente não aprofundou sua análise ao nosso contexto de semi-amadorismo tipográfico, tendo portanto se limitado a repetir a mesma explicação dada pela minha professora de 1a série.
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