Nataniel Jebão : Nossa Sociedade

para quem não conhece porque é um brasileiro pobre e iletrado, nascido na baixa sociedade, este é Nataniel Jebão, o cronista da Nossa Sociedade:

Eu, o grande Jebão, descendente de nobres alienígenas, imperadores, reis, príncipes e papas, jamais me preocupei muito com as questões espirituais. Uma vez que sou imortal, necessito apenas de dinheiro, mulheres e um alfaiate inglês. Tenho-os. Eventualmente, porém, comunico-me com o Além através do computador. Outra noite – depois de realizar com admirável sucesso a posição do coração da magnólia negra sobre a virgem neve – liguei o computador e alva ainda estava a tela quando por ela (viram como rimou?) passou um inseto mínimo, a décima parte de uma formiga.

Preparei-me para esmagá-lo quando uma voz tonitruante soou aos meus sensíveis ouvidos: ”Pense no que vais fazer, Jebão, pois sou Deus”. Para resumir uma longa e instrutiva conversa, direi apenas que ele me explicou tudo. E o tudo, como o nada – e confesso que esta parte não entendi direito, pois as esposas me chamavam para ver o último capítulo da novela Os ricos também broxam – é o ritual, o espetáculo. Houve uma época em que o show era o show e a realidade, a realidade. Hoje, apenas os eleitos, como Berzoini, conseguem distinguir o que é real do que é ficção. Os meios de comunicação usam o ritual para seu jornalismo e os ritualistas usam o jornalismo para o ritual. Por isso precisamos estar sempre atentos: a pedra pode ser nuvem e a nuvem pode ser o que bem quiser, uma vez que toma todas as formas.

Neste momento o mundo real tornou-se tão ficcional que a ficção decidiu vingar-se da realidade. A ficção pode matar a fome e o peixe pode estar podre. O Negro Preto (demorei a entender que ele se referia a Schwarzenegger) bem como a Rainha das Flores (esta foi fácil, referia-se à governadora Rosinha) são apenas alguns sinais que precisam ser decifrados. Depois do Negro Preto virá a Lassie (que em verdade é macho) e depois da Rainha das Flores virá o Baiuno Fresco, que ninguém sabe quem é. Quando a realidade houver se transformado em ficção e a ficção em realidade, Heráclito Fortes levantará um exército famélico no Piauí e invadirá a Venezuela. As autoridades venezuelanas darão de comer aos piauienses e Heráclito será contratado por um circo e fará sucesso no papel de Chico Banha.

Ele (e vocês sabem a quem me refiro) apontou com uma das suas milhares de patinhas para o imenso telão do tálamo, onde as minhas esposas se deliciavam com o último capítulo da novela, e desapareceu num canto da tela do computador antes que eu pudesse lhe perguntar sobre a quadratura do círculo, os limites do universo e o colossal universo dos limites. A resposta só poderia estar no telão e estava. No oitavo mês, Rachel descobriu que estava grávida de Fred, a doméstica. Júlio e Cláudio casaram no civil discretamente, mas no religioso, na boate do Taj Mahal. Arlindo descobriu que Salete é sua filha e mãe do dr. Valcour. Albertinho Limonta será governador da Bahia e descobrirão um poema de João Cabral de Melo Neto no qual ele confessa que a reforma agrária não passa de uma licença poética de sua autoria.

nosso blog continuará reverenciando o mestre (enquanto a grana dos direitos autorais a ele não faltar) publicando suas sábias palavras
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